VIAGEM DOS GAÚCHOS À MARTE

I
A Notícia corre solta
E já anda de boca em boca
É verdade, coisa louca
Pois no Rio Grande tão falando
Que a gauchada ta se preparando
P'ra visitar os Marcianos
Até já estão prontos os planos
Feito pela agência espacial
E numa nave bagual
Vão p'ra lá, no fim do ano

II
A nave também tá pronta
Com tecnologia especial
Feita de um material
Que só se encontra na pampa
Barro, pó de pedra e de guampa
Misturado com caldo de cana
Fundido em altas chamas
Feita de tição guarda-fogo
Que eu juro e até faço um jogo
Ninguém desmancha esta trama

III
O resultado da formula
É fruto de muita pesquisa
Feita por engenheiros birivas
Que conhecem nosso solo
Formados na Marcopolo
Fabricante de exportação
Que em Caxias e na região
De um jeito fenomenal
Fabricam ônibus espacial
E foguete de propulsão

IV
A nova tecnologia
À muito foi patenteada
E é marca da gauchada
Guardada com mil segredo
Pois todo mundo tinha medo
Que os cientistas da NASA
Aproveitassem a vasa
Para fazer espionagem
E a CIA com sabotagem
Transformasse tudo em brasa

V
Os americanos impressionados
Já se renderam vencidos
Reconhecendo terem perdido
A nova corrida espacial
Pois a gauchada, afinal
Tomara conta do pedaço
E dominaram o espaço
Com estilo bem campeiro
E a marca do missioneiro
Mostrando que braço é braço

VI
Para fazer a viagem
A nave foi protegida
Por uma cobertura revestida
Com cera e barro vermelho
Mais brilhoso que um espelho
Refletindo incandescente
P'ra enfrentar o calor bem quente
De mais de 5 mil graus
Que queima pior que mingau
Servido em prato bem quente

VII
A Agência espacial Gaúcha
Já contratou os pilotos
Mas tem uns índios marotos
Que chamam eles de ginete
Pois são gente do Alegrete
Que só entendem de alazão
Sequer conhecem avião
E nem ônibus espacial
E deste jeito bagual
Tá feita a tripulação

VIII
Com dez vagão de mantimento
Abarrotaram bem a nave
E guardaram a sete chave
Uma dispensa bem cheia
Carne de gado, de ovelha
Arroz, mandioca e farinha
Uma farofa de galinha
Salame, morcilha e toicinho
E p'ra engraxar o focinho
Picanha, costela e maminha

IX
No meio dessa fartura
A aguada não é rasa
Vinho crioulo, de casa'
Cachaça marca "Que Tal”
Cibalena, fantol, melhoral
Vai que alguém adoeça
Ou algum "virus" apareça
O remédio tá bem a mão
Solta o vento da prisão
E cura dor de cabeça

X
Antes de dar a partida
Abasteceram bem o tanque
E p'ra que não falhe no arranque
O combustível é de graspa
Aditivado com raspa
De cipó com nosmosca
Mistura tri destilada
Da mais alta octanagem
Mais a fibra e a coragem
Que é marca da gauchada

XI
Dentro da espaçonave
Cabem uns 100 aeronautas
E ao invés da roupa de astronautas
Vão com a “pilcha” gaúcha
Um pala, adaga, garrucha
Botas bombacha e guaiaca
Esporas lenço e a faca
E junto o velho facão
Na cintura um três oitão
Vai que apareça uns Marciano
Assim metido a castelhano
Não dá p'ra afrouxar o garrão

XII
E para se entreter na viagem
Vai junto uma churrasqueira
Erva buena da Palmeira
E a velha cuia missioneira
Uma pinga marisqueira
Rapadura, fumo e palheiro
Um pandeirista, um gaiteiro
Prendas lindas “oigaletê”
P'ra em Marte, fundar um CTG
No velho estilo campeiro

XIII
Então já está tudo pronto
Pode acender o foguete
Com chapéu de capacete
Lá se vão a gauchada
Não é pouca patacoada
Esta é mais uma façanha
Quem não conhece estranha
Mas quem conhece admira
Podem juntar os caipiras
Dos gaúchos, ninguém ganha

POMPEO DE MATTOS
Deputado Federal
PDT/RS