OUTROS DITOS

I
Dos ditos que eu já disse
Alguns faltaram dizer
E para ninguém esquecer
Aqui eu venho de novo
P'ra dizer para o meu povo
Mais ditados por escrito
Vou no rumo do meu grito
Destramelando a garganta
Que até o quero-quero se espanta
Com o eco dos meus ditos

II
Neste jogo de ditados
Eu dou as cartas do baralho
Cada macaco no seu galho
Nesta briga de bugio
Não venham mentir p'ro tio
Que já dou nome p'ros bois
Separo o joio do arroz
E não dou pano p'ra manga
Pois eu não sou boi de canga
E não deixo nada p'ra depois

III
Faz tempo, diz o ditado
Que água mole em pedra dura
Tanto bate até que fura
E quando um burro fala
O outro burro se cala
Mas se quem cala consente
É bom dizer p'ra essa gente
Que quem não deve não teme
Mas quem tá devendo treme
Traído pelo inconsciente

IV
Nasci e cresci no entrevero
E ninguém me iguala eu aposto
Não tenho tudo que gosto
Mas gosto de tudo que tenho
No facão me desempenho
Na peleia eu abro cancha
Nos pequenos dou de prancha
Nos grandes eu dou de talho
Extravio com o borralho
É o meu jeito de xirú
E quem quiser guabijú
Que venha chacoalhar o galho

V
Se alguém pensa em me amansar
Tire o cavalo da chuva
Lamento o choro da viúva
E a morte do falecido
É puro tempo perdido
E de pouco adianta as intrigas
Sei, com mulher não se briga
Não se bate nem com flor
Mas se quiser o meu amor
Tem que me encher a barriga

VI
O que eu tenho ninguém me tira
E o que é meu o boi não lambe
A graxa tá no matambre
E eu conheço pelo cheiro
Mulher bonita e dinheiro
Só vejo nas mãos dos outros
Mas nas patas do meu potro
Ganhei muitos patacão
Pois sei, se falta feijão
O amor se manda pela janela
Mulher nova e magricela
Mata o “veio” do coração

VII
Nos entreveiros da lida
Me desempenho no braço
Nunca me agachei p'ra macho
E p'ra mulher não me ajoelho
E é no cabo do relho
Que eu resolvo as pendengas
Sem dispensar a cherenga
Na hora da precisão
E no ronco do três oitão
Eu acabo com a lenga lenga

VIII
Cachorro que come ovelha
Lhes garanto “só matando”
Não morde quanto tá “acuando”
Só espanta c'o a guaipecada
Quem nunca abriu picada
Não sabe o mato que lenha
E quem quiser vir que venha
Mas vai dar c'os burro n' água
Não adianta chorar as mágoa
Só porque a égua tá prenha

IX
Quem tem a munheca grande
De fome nunca padece
Quem apanha não esquece
Quem tá vivo aparece
Tem gente que não merece
Mas mesmo assim sempre ganha
Gato magro não me arranha
Nem me encanto com sereia
Não me assusta coisa feia
E as mágoas afogo na canha

X
Eu nunca dei importância
Para a fofoca e a intriga
Dou um boi para não entrar na briga
E uma boiada p'ra não sair
E se alguém insistir
Logo eu tiro balda e manha
Rio onde tem piranha
Jacaré nada de costa
Mas tem muita gente que gosta
E só para quando apanha

XI
Quem tem boca vai a rumo
Vai a Roma, vai e arruma
Tem gente que não se apruma
Por não saber o caminho
O chupim nunca faz ninho
Usa sempre o ninho alheio
Eu só uso os meus arreio
E me sustento na doma
Eu boto o potro na lona
E tomo conto do rodeio

XII
Gaúcho que é gaúcho
Honra a bombacha que usa
E sendo bem gaudério não recusa
Um boi na boca do brete
Gaúcho que é gaúcho
Nunca puxa o canivete
Nem foge sem ver do que
Não se bota p'ra correr
Mesmo vendo a coisa feia
Não tá morto quem peleia
E eu tô pagando pra ver

POMPEO DE MATTOS
Deputado Federal
PDT/RS