O SILÊNCIO

I
Obrigado pelo silêncio
Que vocês fizeram por mim
Confesso que silêncio assim
Silenciosamente não tinha visto
Agora eu silencio e não insisto
E ao próprio silêncio eu despisto
Faço silêncio e não desisto
P’ra em silêncio permitir
Só para em silêncio ouvir
O que silenciosamente lhes peço
Pois só pedi silêncio, confesso
Para o povo me aplaudir
Acabem com o silêncio agora
Mandem o silêncio embora
Quero ver o povo aplaudir

II
No sentido do silêncio
Só o silêncio faz sentido
Onde o silêncio consentido
É o que permite escutar
E nesta hora o silêncio
É o que o silêncio recomenda
Tal silêncio é como venda
Tira visão mas não cega
No silêncio é esta a regra
O silêncio nada alega
Faça silêncio e entenda

III
Que bom ouvir o silêncio
De quem silente me escuta
Não precisa força bruta
Para a gente silenciar
Bastou eu solicitar
O silêncio de cada um
Que o silencio matou o zum zum
Num silêncio obsequioso
Só ficou algum teimoso
Mas isso é muito comum

IV
Há os que antes silenciados
Na silenciosa opressão
Hoje silenciam a oposição
Pois silenciosamente estão no poder
E em silêncio começam a fazer
O silencioso papel de algoz
Querendo silenciar nossa voz
Em silenciosas negociatas
Usando em silêncio a plata
Logo eles que antes eram como nós

V
O silêncio tem muitos sentidos
Que só se nota silenciando
E que em silêncio vai falando
No silêncio mais profundo
Num silêncio de outro mundo
Onde o silêncio vira sono
E num silêncio eu ganho o trono
No silêncio do meu sonho
E neste silêncio medonho
Do silêncio eu fico dono

VI
Amigos peço silêncio
Um silêncio por favor
Silêncio p’ra que o orador
Possa em silêncio falar
Só o silêncio permite escutar
A voz de quem se anuncia
E só aquele que silencia
Pode melhor entender
Que é o silêncio, podem crer
O pai da sabedoria

VII
Obrigado pelo silêncio
Então Já posso falar
Pois o ato de silenciar
O próprio silêncio explica
Só o silêncio justifica
O que se pretende saber
O que estou querendo dizer
É que o silêncio, é na verdade
Uma expressão de vontade
Que é difícil de entender

VIII
Mas hoje em silêncio relembro
Dos silêncios dos porões
De silenciosas confissões
E do silêncio dos gemidos
Onde o silêncio não era permitido
Ou tu fala ou silencia
E se silenciasse morria
Nas silenciosas masmorras
E nem que o silêncio recorra
Em silêncio o ditador tudo podia

IX
Há os que em silêncio rezam
Uma silenciosa oração
E em silêncio pedem perdão
Silenciando suas vaidades
E num silêncio de igualdade
Silencioso e com humildade
Silencia p’ra que a humanidade
Solucione as diferenças
Para que em silêncio vença
A silenciosa maldade

X
Há o silêncio de quem sofre
Em silencioso tormento
Há o silêncio do consentimento
De um silencioso amém
Há os silêncios também
Em silenciosa resposta
É o silêncio de quem gosta
Do que em silêncio ouviu
E num silencioso arrepio
Aceita silenciosamente a proposta

XI
Há o silêncio do escuro
Das altas horas da noite
Que em silencioso açoite
Silenciam o burburinho
É quando em silêncio e sozinho
Vejo uma estrela silenciosa
Em em silêncio faço prosa
P’ra em silêncio despertá-la
Mas ela silenciosamente se cala
Num silêncio de teimosia

XII
Silenciar é consentir
E muitas vezes é calar
Mas o silêncio pode calar
O que só o silêncio sabe dizer
Silenciar é compreender
O silêncio de quem silenciou
E que em silêncio cruzou
P’ro silêncio do outro mundo
E que o silencio mais profundo
E o silêncio de quem ficou

XIII
Tem o silêncio que reprime
Que silencia e que cala
Silêncio que inibe a fala
Em silenciosa ditadura
Que silencia a tortura
E que silenciou todos nós
Naquele silencio atrás
Que também me silenciou um dia
Mas que em silêncio a democracia
Devolveu a minha voz

XIV
Há o silêncio daquele
Que em silêncio foi amada
E que silenciosa e apaixonada
Silenciou o seu amor
Só não silenciou a dor
De quem silenciosamente partiu
Pois seu silêncio não permitiu
Dizer o que em silêncio sentia
E o que o silêncio mais queria
Só o seu silêncio não viu

XV
Há o silêncio do assassino
Que setenciou o assassinato
E que em silêncio foi condenado
Mesmo silenciando o crime
O silêncio não o exime
Pois se só o silêncio não é prova
O silêncio também reprova
Quem silencia esse feito
E o próprio silêncio dá um jeito
Fazendo do silêncio a própria cova

XVI
Por isso vou silenciar
Só p’ra não ser silenciado
E num silencio reservado
Que em silêncio as vez se faz
Em silêncio assim no más
E em silêncio vou pensando
Que silenciar de vez em quando
Em silenciosa reflexão
É fazer do silêncio a razão
Eis aí a própria razão do porque estou silenciado
E esta é a razão do porque estou silenciando

POMPEO DE MATTOS
Deputado Federal
PDT/RS