DITOS

I
Dos ditos que tenho dito
Já a muito virou ditado
Que hoje são relembrados
Servindo como lição
De que ao tempo cabe a razão
Por sábia sabedoria
Pela experiência que um dia
Adquiriu com a existência
E lhe serve como ciência
P’ra provar o que já sabia

II
Isso explica porque o diabo
Sabe mais por ter idade
Repetida, mentira vira verdade!
Pois não se prega prego sem estopa
Mortalha nunca foi roupa
E que bom cabrito não berra
Porque o chefe nunca erra
Mas a mim ninguém me dobra
Se uma cruzeira me pica
Fico eu e morre a cobra

III
Lagarto que sai da toca
Quer chumbo, diz o ditado!
Entre os ditos confirmados
Ovelha não é pra mato
Quem não tem cão caça com gato
E se é cascavel bate o guizo
Galo fecha os olhos dá o aviso
Por saber cantar decor
E eu canto muito melhor
Com meus ditos de improviso

IV
Os ditos do ditador
Só se consegue conhecer
Quando ele tomar o poder
E se revela a ditadura
E mostra a falta de cultura
Pois diploma não encurta orelha
Cachorro que come ovelha
Traz a lã no vão do dente
Não atire pedra em tua gente
Se for de vidro tuas telhas

V
Sou desses que não se enleia
Pois comigo vai ou racha
Sou macho que não se agacha
E é só redomão que eu encilho
Sou cerne de corumilho
Tipo tição guarda fogo
Te juro e até faço um jogo
De que a mim nada se iguala
Ninguém me pisa no pala
E nem me tira p’a bobo

VI
Por isso eu digo ditando
Os ditado que nunca disse
Queria que todos vissem
Pois só quem vê pode crer
Mas anote, pode escrever!
Que é feliz quem crê sem ver
E que só se dá de beber
P’ra aquele que está com sede
E nem tudo que cai na rede
Necessariamente é peixe
E se tu não quiser, me deixe!
Que eu embrabo e subo parede

VII
Mas o ditado recomenda
Tá nervoso vai pescar
O que é bom não tem lugar
E quem manda melhor faz
Jogo, é trinca de Ás!
Que o azar é do azarado
Rengo, se vê sentado!
E o cego quando dormindo
E se o calaveira vem vindo
A muito tô do outro lado

VIII
Quero-quero que aqui canta
Tem ninho noutro potreiro
Rico se vê no dinheiro
E o povo pela cultura
Negro bom não se mistura
Coragem a gente nota
Raiz boa sempre brota
É bom medir as consequências
E não perder a paciência
Eu já passei da minha cota

IX
Calma e caldo de galinha
Nunca fez mal p’ra ninguém
No trilho quem anda é trem
E o diabo sabe a quem aparece
De pouco adiantam as prece
Se o índio é de pouca fé
Nem tudo que parece é
Só covarde é que se aninha
Se o cabo da adaga é minha
A folha é de quem quiser

X
Tudo que tem começo
Não termina antes do fim
E isso serve p’ra mim
Pois quem não chora não mama
Não adianta arrumar a cama
Para outro vir deitar
Só quem sabe pode ensinar
Que deste mato não sai coelho
E não adianta dar conselho
A quem não quer escutar

XI
Mas quem já é macaco velho
Não bota mão em cambucá
Do mato, boi só sai com mutuca!
Por isso é bom explicar
Que só se aprende a levantar
Se um dia a gente cair
Que é muito melhor prevenir
Do que depois remediar
E sempre que alguém calar
É o mesmo que consentir

XII
Por isso eu digo os ditados
Que faz tempo me ditaram
São lições que me ensinaram
Do adágio popular
Que faz a gente admirar
Por ninguém ter esquecido
Que não se tenha perdido
Nestes milênios de história
E que guardados na memória
Mostra que o povo é sábio

POMPEO DE MATTOS
Deputado Federal
PDT/RS