DEPUTADO DE BOMBACHA

I
Recebi uma missão
Pelo voto fui eleito
Para tentar dar um jeito
E botar ordem na casa
Cortando a ponta das asas
De algum gavião matreiro
Que guiado pelo cheiro
Do desmando e da podridão
Se avançam sobre a nação
Pior que corvo carniceiro

II
Já no portão de entrada
Me barraram o acesso
Dizendo que no congresso
A norma e o regimento
Exige um comportamento
Manda estar enfatiotado
Não aceita índio pilchado
E nem outra indumentária
E que a Assembleia a Plenária
São lugares respeitados

III
Me rebelei contra as regras
Não aceitei as razões
Não me adiantam explicações
E dou o contra argumento
Aqui neste parlamento
Eu digo e sou bem franco
Tem muito colarinho branco
Bem vestido engomado
Mas que tem o rabo atado
Preso pelo pé dos bancos

IV
Vi que o baile era de cobra
E botei botas cano alto
Nas perneiras botei salto
Pra enfrentar as cascavel
De acavalo e num tropel
Eu me fui portão adentro
E adentrei no parlamento
Pilchado e de improviso
E fui logo dando o aviso
Não me ataca qualquer vento

V
Fiz a minha invocação
E desatei o verso em rima
Rio nenhum corre pra cima
Não fujo sem ver do que
Não me botam pra correr
Nem pelam minha guaiaca
Eu calço o pé na estaca
E até amanso cobra braba
Pois sendo bem macho o cabra
Não se vende por pataca

VI
Dito isso reparei
Que não há comparação
É bom que saiba a nação
Não quero ser comparado
Com alguns outros deputados
Lá do nordeste, do norte
Líder do esquadrão da morte
Ou matador de mulher
O que o gaúcho quer
É que este pois país desentorte

VII
Este é o panorama
Está descrito o cenário
É assim, neste plenário
Que exerço meu mandato
Mas é bom que esse relato
Registre o outro lado
Onde há bons deputados
Cumpridores do dever
E é bom o povo saber
São homens públicos e honrados

VIII
Esta é minha missão
Separar o joio do trigo
Saber quem é “mui amigo”
Passa conversa engana
Faz sacanagem é sacana
E aquele que é direito
Merecedor do respeito
Pois que tem dignidade
Defensor da verdade
Pra isso que foi eleito

IX
Está claro o papel
Que o povo espera de nós
Quer ouvir a nossa voz
Mostrando a realidade
Que não sirva a imunidade
Para esconder falcatruas
Pois a voz rouca das ruas
Não repara a vestimenta
Mas reclama não aguenta
Quer a verdade nua e crua

X
Por isso aqui estou
Pilchadito assim no más
Não importa tanto faz
O que dizem os figurões
Eu tenho minhas razões
Para sempre estar pilchado
E enquanto for deputado
Minha pilcha será gala
Ninguém me pisa no pala
Respeitem pra ser respeitado

XI
O tempo corre do tempo
Pra fazer tempo e história
Rescrevendo com glória
Um passado de façanhas
O gaúcho não barganha
Os seus símbolos sagrados
Por isso que vou pilchado
Bota, bombacha, guaica e lenço
Isso pra mim é consenso
E vestido deste jeito
Eu vou ganhando respeito
Pra dizer o que penso

POMPEO DE MATTOS
Deputado Federal
PDT/RS