CHIMARRÃO DE BARBAQUÁ

I
Doce amargo que sorvo
Com carinho e singeleza
Por mãos rudes com destreza
Tu fostes bem preparado
Pra ser símbolo do agrado
Ao andejo viajante
Dizendo, chegue pra diante
Que o mate já está encilhado
Com erva do bom cancheado
Pra alegrar o visitante

II
É erva da seiva pura
Que tem o orvalho do mato
É a essência é o retrato
Do modo de antigamente
Quando o pago era semente
O Rio Grande ainda terneiro
E o guasca “tarefeiro”
Se ia picada a dentro
Buscar pão pro seu sustento
Que esta é a sina do “ervateiro”

III
O facão marca três listras
Cortava galho por galho
Em sincronia os talhos
O erval ia podando
E já no mais despencando
Para ser logo “arroiado”
E depois bem sapecado
Isso com ciência e com jeito
Coqueiro de parapeito
Pra evitar mate queimado

IV
Em seguida o repique
Para tirar os “cambitos”
E como ficam bonitos
Aqueles talos compridos
Só sobrando o “raído”
Bem atado com taquara
Carregado sobre vara
Para pesar na balança
E tirar a desconfiança
Olho a olho, cara a cara

V
Ali no mais a carreta
Cumpre a sua função
E vai levando de roldão
Cruzando mato e tiguera
Cobra braba e outras feras
Passando pro lado de lá
Direto pro Barbaquá
Pra esparramar no balaio
Fogo alto no “borraio”
É o segredo pra secar

VI
A labareda vai longe
E chega soltar faisca
E o índio taura nem pisca
Vendo o calor no “conduto”
O fogo veste de luto
Preteando inteira a “boquilha”
E seguindo esta trilha
É preciso de cuidado
Pra um barbaquá ser queimado
Basta faltar a vigília

VII
A boeira vai sumindo
E já brilha a estrela D’alva
Esta noite está salva
Chega a hora de “canchear”
E o cavalo atrelar
É o primeiro compromisso
Para arrodiar o “Ouriço”
Com suas pontas ir quebrando
E a erva mate aconcheando
Relembrando algum cambicho

VIII
Está pronta a cevadura
Do tipo erva cancheada
E pra ficar bem cevada
Não carece muita ciência
É só ter jeito e paciência
Nem precisa de oração
É só socar no pilão
Que mate melhor não há
Pois erva de Barbaquá
É melhor pro chimarrão

IX
Eu falo isso com garbo
Porque me criei na lida
São exemplos desta vida
De quem já foi “ervateiro”
Foi peão foi “tarefeiro”
Sabe que o mate é essência
E por pura persistência
Eu te sorvo trago a trago
Pra que o verde sangue do pago
Mantenha viva a querência

POMPEO DE MATTOS
Deputado Federal
PDT/RS